A transformação da frota brasileira em números:
O país encerrou 2025 com 613.389 veículos eletrificados em circulação, uma alta de 63,86% em relação ao fechamento de 2024, quando a frota era de 374.333 unidades. Os dados são de levantamento da NeoCharge com base na Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), divulgado nesta semana. Em doze meses, o Brasil colocou mais de 239 mil veículos eletrificados adicionais nas ruas — um ritmo que vai ficando difícil de chamar de tendência e passa a ser simplesmente o novo comportamento do mercado.
O pano de fundo é o recorde de vendas registrado pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE): 223.912 emplacamentos de veículos eletrificados leves em 2025, alta de 26% sobre 2024 e crescimento dez vezes superior ao do mercado automotivo como um todo, que avançou apenas 2,6% no período. Dezembro foi o melhor mês da história da eletromobilidade no Brasil, com 33.905 emplacamentos e participação de 13% nas vendas totais de veículos leves. E 2026 já começou em ritmo ainda mais intenso.

A composição da frota: PHEV e HEV somam quase dois terços do total
Dos 613.389 veículos eletrificados em circulação no Brasil ao fim de 2025, a composição revela o perfil do consumidor brasileiro: 259.060 são híbridos convencionais sem plug (HEV), o maior grupo, com 42% do total. Em seguida vêm os híbridos plug-in (PHEV), com 200.244 unidades (33%), e os 100% elétricos (BEV), com 154.085 veículos (25%). Ou seja, três em cada quatro carros eletrificados nas ruas do Brasil ainda dependem de gasolina ou etanol em algum momento — o que faz sentido dado o histórico de adoção, com os híbridos convencionais (liderados pela Toyota) chegando antes ao mercado de massa.
Mas o que as vendas de 2025 indicam é uma mudança de composição: os PHEV lideraram os emplacamentos do ano com 101.364 unidades (45% do total vendido), e os BEV vieram em segundo com 80.178 (36%). Os híbridos sem plug somaram 42.370 (19%). Isso significa que a frota futura será mais plug-in do que a atual — mais carros que podem ser recarregados, menos dependência estrutural do posto de gasolina.
Quem lidera a frota: BYD na frente, Toyota e GWM completam o pódio
No ranking de marcas com maior frota eletrificada em circulação, a BYD lidera com 203.651 veículos — resultado direto da combinação entre os Dolphin, Dolphin Mini, Yuan Pro, Song Plus e King acumulados nos últimos anos. A Toyota aparece em segundo com 130.724 unidades, sustentada pelo enorme volume de Corolla e Corolla Cross híbridos vendidos desde 2019. A GWM fecha o pódio com 72.643 veículos, refletindo a tração do Haval H6 PHEV, o SUV eletrificado mais vendido do país em 2025.
O dado da Toyota merece um parêntese: a marca japonesa não aparece com frequência nas discussões sobre eletrificação no Brasil, mas dois décadas de Corolla Hybrid e a chegada do Corolla Cross garantem ao grupo um volume de frota que poucas montadoras conseguirão alcançar no curto prazo. A diferença é que a Toyota joga no HEV — sem plug — enquanto BYD e GWM lideram entre os plug-in.

Fevereiro de 2026: o crescimento não desacelerou
Se os dados de frota mostram onde chegamos, os emplacamentos de fevereiro de 2026 mostram a velocidade com que o Brasil está avançando. Foram 24.885 veículos eletrificados emplacados no mês — quase o dobro (alta de 92%) do registrado em fevereiro de 2025, quando foram vendidas 12.988 unidades. O resultado elevou a participação de mercado dos eletrificados para 14% das vendas totais de veículos leves no país, em um mercado total de 176.797 unidades no mês. Para comparação: em fevereiro de 2025, essa fatia era de 7%.
O crescimento de fevereiro é especialmente relevante porque o mês é historicamente fraco para o setor — menos dias úteis e Carnaval no meio. Ainda assim, o volume foi 5% superior a janeiro. No acumulado do primeiro bimestre de 2026, o Brasil já soma 48.591 eletrificados, alta de 90% sobre os 25.544 do mesmo período de 2025. A ABVE projeta superar 280 mil unidades até o fim do ano — 25% acima do recorde de 2025.
No mix de tecnologias de fevereiro, os BEV (100% elétricos) lideraram individualmente com 8.703 unidades (35% dos eletrificados), seguidos pelos PHEV com 8.393 (34%). Os HEV e HEV Flex somaram 7.789 unidades (31%). No ranking de modelos, o BYD Dolphin Mini foi o elétrico mais vendido do mês, com 4.874 unidades — 56% de tudo que foi emplacado na categoria BEV. Entre os híbridos, o GWM Haval H6 liderou com 3.025 unidades, seguido pelo Toyota Corolla Cross Hybrid (2.287) e o BYD Song Pro (1.979). O BYD Song (incluindo as versões Plus e Pro) somado ficou em primeiro lugar no ranking geral de eletrificados do mês, com 3.702 unidades.
O que explica o crescimento — e o que ainda trava
Quatro fatores combinados explicam a aceleração. O primeiro é o aumento da oferta: em 2025, chegaram ao mercado brasileiro 400 modelos eletrificados diferentes, 26% a mais que os 317 de 2024. O segundo é a produção nacional, que avançou concretamente — GWM em Iracemápolis (SP), BYD em Camaçari (BA) e a chegada da Leapmotor no polo de Goiana (PE) — reduzindo custos e contornando parte da pressão de câmbio e imposto de importação. O terceiro são os incentivos fiscais estaduais: em São Paulo, a isenção de IPVA para híbridos flex impulsionou as vendas dessa tecnologia; no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul, elétricos puros têm isenção total. O quarto fator é a familiarização do consumidor — à medida que mais pessoas conhecem ou convivem com quem tem um eletrificado, a barreira psicológica de adoção cai.
O que ainda trava é a infraestrutura. Segundo a ABVE, o Brasil tem cerca de 16.880 pontos de recarga, o que dá aproximadamente um eletroposto para cada 18 veículos eletrificados em circulação. Em São Paulo, o estado com maior frota, são 4.678 pontos para uma frota de 93.500 veículos — relação de 20 carros por eletroposto. O dado muda pouco para quem carrega em casa, mas é limitante para quem mora em apartamento ou percorre longas distâncias. A lei paulista 18.403/2026, sancionada em fevereiro, que garante ao condômino o direito à instalação de carregadores em condomínios, é um passo importante na direção certa — mas a expansão da rede pública ainda precisa avançar na mesma velocidade da frota.

O que 2026 reserva
Além do crescimento orgânico, 2026 traz um elemento de pressão que vai remodelar o mercado: em julho, a alíquota de imposto de importação para elétricos e híbridos atinge o teto de 35%. Isso significa que os modelos que chegam importados — BEV e PHEV vindos da China e da Coreia do Sul — precisarão repassar esse custo ao preço final ou absorver na margem. Montadoras que já têm produção local, como GWM e BYD, saem em vantagem.
Por isso, o primeiro semestre ainda funciona como uma janela de oportunidade: parte dos estoques chegou com alíquotas menores, e os preços ainda refletem o custo de 2025. Quando esses estoques se esgotarem, a reprecificação virá. O comprador que está no processo de decisão tem razões reais para não esperar muito.
A combinação de frota crescente, produção nacional em expansão, infraestrutura de recarga ainda insuficiente e imposto na curva ascendente define o cenário da eletromobilidade brasileira em 2026. Os números mostram que a transição está acontecendo — o debate agora não é mais se o Brasil vai eletrificar, mas em que ritmo e com qual distribuição pelo território.











