Está em testes nas estradas — e a corrida entre Toyota, Mercedes, BYD e CATL já tem prazo
Resumo: as baterias de estado sólido saíram do laboratório e estão rodando em protótipos reais. Em agosto de 2025, um Mercedes EQS percorreu 1.205 km sem recarregar usando células de estado sólido. BYD confirmou produção em lote piloto para 2027. Toyota, Samsung, CATL e Factorial Energy têm cronogramas similares. A pergunta não é mais “se vai acontecer” — é “quem chega primeiro”.
Durante anos, a bateria de estado sólido foi o “fusão nuclear dos carros elétricos”: promessa fantástica, data de entrega que nunca chegava. Toyota prometeu para 2020. Não veio. Prometeu para 2022. Não veio. A piada ficou boa. Mas nos últimos seis meses algo mudou: os protótipos saíram dos laboratórios, foram para as estradas, e os números que aparecem não são de press release — são de validação real em rotas públicas, clima variado e condições de uso normal.
A tecnologia promete acabar com os três maiores problemas da bateria de íons de lítio convencional: a autonomia limitada, o risco de incêndio e a degradação ao longo do tempo. E os dados que chegam agora sugerem que pelo menos dois desses problemas já foram resolvidos em condições reais.
“A bateria de estado sólido é um verdadeiro divisor de águas para a mobilidade elétrica. Com o teste de longa distância do EQS, mostramos que essa tecnologia funciona não apenas no laboratório, mas também na estrada.”
— Markus Schäfer, CTO da Mercedes-Benz Group
O feito foi em agosto de 2025: um EQS com modificações pontuais saiu de Stuttgart, atravessou a Alemanha e a Dinamarca e chegou a Malmö, na Suécia — 1.205 km depois, sem uma única parada para carregar. Ao chegar, ainda havia 137 km de autonomia restante. As células foram fornecidas pela americana Factorial Energy, com tecnologia desenvolvida em parceria com a equipe de Fórmula 1 da Mercedes-AMG HPP.
⚡ POR QUE A BATERIA DE ESTADO SÓLIDO É DIFERENTE
A corrida: quem está na frente e o que cada um tem em mãos
Não existe uma única tecnologia de estado sólido — existem pelo menos três apostas diferentes de eletrólito (sulfeto, óxido e polímero), e cada fabricante foi por um caminho. A BYD escolheu os sulfetos, que têm maior condutividade e são mais viáveis industrialmente. Toyota foi pelo óxido, mais estável mas difícil de escalar. A Factorial Energy — parceira da Mercedes, Stellantis, Hyundai e Kia — desenvolveu sua própria formulação proprietária chamada FEST.
Em fevereiro de 2026, a BYD confirmou ao mercado que atingiu marcos de evolução em vida útil e carregamento rápido nos sulfetos. A produção em lote piloto está prevista para 2027 — restrita a modelos premium num primeiro momento — com escala em massa projetada para depois de 2030. A CATL segue trajetória paralela, e juntas as duas empresas já respondem por mais de 50% do mercado global de baterias para EVs.
🧠 Ponto-chave: a diferença entre “lote piloto 2027” e “em massa 2030” é enorme. Os primeiros carros com estado sólido vão custar o dobro — ou mais — de um EV comum. A tecnologia chega primeiro em modelos de R$ 600 mil ou mais. O consumidor médio espera até o fim da década.
🗓️ CRONOGRAMA GLOBAL — ESTADO SÓLIDO NOS CARROS
O sódio como plano B — e por que ele pode chegar antes
Enquanto o estado sólido enfrenta desafios de escala, outra tecnologia avança em paralelo e pode chegar ao mercado de massa antes: as baterias de íon de sódio. O sódio não tem as propriedades do estado sólido, mas tem algo que o lítio não tem — é abundante, barato e não depende de cadeias de fornecimento concentradas. O custo atual de uma célula de sódio está em torno de US$ 59/kWh, contra US$ 52/kWh das melhores LFP.
A BYD está desenvolvendo sua terceira geração de sódio com 10.000 ciclos de carga, e a previsão é de uso em carros a partir de 2026. Isso importa para o Brasil: se o sódio escalar bem, elétricos de entrada com custo menor e sem dependência de lítio podem se tornar realidade mais cedo do que a janela de 2030 projetada para o estado sólido.
⚠️ Contexto Brasil: o país tem as maiores reservas de lítio da América do Sul — e a BYD já está minerando em Minas Gerais. Mas se o sódio escalar antes do estado sólido, a vantagem estratégica do lítio brasileiro diminui. É um risco geopolítico e econômico que o setor ainda não discute abertamente.
O que isso muda para quem vai comprar um elétrico nos próximos anos
A resposta curta: pouca coisa até 2028, muito depois de 2030. O estado sólido vai chegar primeiro em modelos de luxo e alta performance — o tipo de carro que nenhum comprador médio considera. Mas há um efeito indireto importante: conforme o estado sólido avança nos premium, as baterias LFP e NMC vão ficando mais baratas nos populares. Já está acontecendo: o custo da célula LFP caiu de US$ 568/kWh em 2013 para US$ 52/kWh em 2025. A curva não para.
Para o Brasil, o cenário mais realista é: entre 2026 e 2028, os elétricos que chegam por aqui continuam com lítio — mas com autonomia maior, carregamento mais rápido e preço menor. A tecnologia sólida aparece nos catálogos nacionais provavelmente a partir de 2029 ou 2030, em versões topo de linha de marcas chinesas e europeias. Quem comprar um elétrico hoje não está comprando tecnologia ultrapassada — está comprando o pico da geração atual, que é boa.
🏁 QUEM ESTÁ NA CORRIDA — E QUANDO CHEGA
Fontes: Mercedes-Benz Group · BYD Investor Relations · Electrek · MIT Technology Review · CarNewsChina · EV Magazine · Cailian Press











